1. Haikai dos marujos encontrados mortos no fundo do mar

    Fui porque
    Achei que
    Sereia.

     


  2. Covarde

    Eu queria ter o mar. Ou o céu. Ou as montanhas, verdinhas, de algum lugar bonito na europa. Ou o Grand Canyon. Ou o fundinho mal iluminado de uma antiga construção, hoje em ruínas e sem telhas, que servia para guardar sacos de café numa fazenda da região. Ou qualquer coisa

    que me desse um pouco de fuga.

    Eu queria ser aquele cara do mar. Aquele cara que olha pro céu. Aquele que reserva o plano de fundo do computador para diferentes fotos de montanhas, verdinhas, de lugares bonitos na europa. Eu queria falar sempre do Grand Canyon e das tantas vezes que fui para lá. Eu queria ser encontrado por alguém minimamente preocupado com o meu sumiço de horas sentado na quina da parede no fundinho mal iluminado daquela antiga construção hoje em ruínas e sem telhas. Ou qualquer coisa

    que deixasse claro para mim e para todos que existe um lugar — amplo como o mar ou específico como o fundinho — onde eu vou para me perder,do qual eu me lembro para me esquecer
    do resto do mundo.

    Eu não tenho esse lugar. Eu não tenho o onde me fascine acima de todas as coisas, eu não tenho. Eu não fujo. Sem ter um refúgio, refugo

    e vivo, sozinho, esse momento onde os valores se invertem e o covarde é quem fica.

     


  3. aquele texto sobre o hiato

    Um hiato — espera aí que eu vou dar uma pesquisada — é, na linguística, o encontro de duas vogais que não formam ditongo.

    Nota que pra eu começar com descrição de dicionário é porque a coisa tá feia mesmo. Não use descrição de dicionário.

    Um hiato — morra, dicionário — é isso que eu não quero. Um hiato é o que tá fazendo aparecer alguns hiatos linguísticos por aqui. Um hiato é, na anatomia, uma fenda, segundo o dicionário.

    Eu não consigo me desprender da minha cabeça, nem num hiato. Principalmente num hiato, aliás.

    O que me impede de levar às últimas consequências um pedaço de literatura? Um apanhado de letras e espaços? O que me frustra na experiência de expressar a necessidade de expressão de uma experiência frustrante? O que me faz, acima de tudo, criar estruturas de fuga no meio de algo que deveria ser minimamente sério.

    Quem estava certo? Quem estará um dia?
    Quem lê Bukowski sabe o que fazer? Bukowski sabia o que fazer? Ou só fazia mesmo? Quem Bukowski lia?
    Quem é que vai me dizer que escrever certo é escrever bruto e que se dane quem lapida, ou que o capricho dos parnasianos tem mais valor que o papel de pão escrito a sangue — para o qual não há borracha ou gramática — no bolso do paletó marrom de veludo batido de um velho ranzinza que não quer saber de pensar na vida?

    Que momento é que vai justificar, na minha vida, que isso vale alguma coisa? Não há nada de certeza nisso aqui. Eu não faço porque amo incondicionalmente, eu não faço porque tenho um talento inato, eu não faço porque vou ganhar dinheiro. Eu não sei por que faço, é bem a verdade. Muito importante dizer ao velho bêbado da máquina de escrever que eu também não faço porque o negócio flui como uma correnteza pelo meu corpo. E antes que ele me rebaixe a escritor indigno, viro de costas pra ele e — deixando tudo que é bandeira pra trás — vou-me embora.

    Aí você emoldura. Bota outro bloco ali. Cria um hiato, vai. É o que você quer fazer de qualquer forma, mesmo sabendo o que vai ser dito depois. O que vai ser lido depois.

    A quarta acepção de hiato num dicionário qualquer é “lacuna, falha”.

    E aí o texto acaba. O hiato acaba. Acaba toda a preocupação formal em diferenciar e cadenciar cada trecho que você nunca teve, nem quis ter, tampouco se preocupou com tanto. Acaba o desabafo metalinguístico em ritmo acelerado e linguagem desleixada para o qual você parou, pensou, calculou e formatou cuidadosamente. Tudo acaba e se junta no caldo das coisas lidas. Seu perfeito acidental e seu acidental perfeito se misturam a Bukowski e o parnasianismo, todos juntos e a contragosto, aprosionados para sempre no espaço negativo que é o vácuo do vazio de um hiato.

     


  4. dia inteiro

    A história se arrasta
    bem diante dos meus olhos
    — que não são cansados nem dispostos —
    preguiçosos, pela tela
    — que não é brilhante nem discreta —
    esquecida, numa sala
    — que não é vazia nem lotada —
    meio fria,

    Meio dia

    numa sala nem lotada nem vazia, meio fria,
    pela tela nem discreta nem brilhante, bem diante
    dos meus olhos nem dispostos nem cansados

     


  5. Atrium

    Eu não conseguia respirar, só não conseguia respirar.
    Eu puxava o ar bem fundo, o pulmão contraía e aproximava de si toda e qualquer realidade paralela.
    Olhando pra cima, um monte de peixes coloridos, girando numa espiral dura e torta. Um móbile gigante de peixes coloridos.
    Cansei dos peixes, estavam duros na espiral dura.
    Cansei de cima.
    Olhei pra frente, olhei pra frente e me vi caindo.
    Eu me vi caindo.
    É.

    Eu puxava o ar bem fundo, acho que já não dava pra doer mais. Pelo jeito meu pulmão já era do tamanho de uma uva passa.
    Pelo jeito meu pulmão já era.
    Eu não queria saber dos peixes - eu acho que adquiri um ódio estranho dos peixes.
    Aquele monte de peixe duro, colorido.
    Que ódio, peixes, que ódio de vocês aí girando bobos no ar, nessa espiral torta, que merda que ela é torta, sem ninguém no meio, sem olho de furacão, sem propósito nenhum.
    Eu não olharia mais pra cima por determinação de jamais olhar pros peixes de novo.

    Eu caí de frente pra mim que me via cair de frente pra mim
    tão rápido
    que nem deu tempo de pensar, que nem deu tempo de analisar e imaginar o que isso poderia significar. Sem pensar se era eu mesmo.
    Não pense, por favor, se nem eu pude pensar.
    De frente pra mim caindo de frente pra mim sem tempo de pensar não tive tempo de pensar em quem pensava e quem caía de frente pra quem.
    Mas eu caí, de frente pra mim.
    tão rápido

    Pra baixo?
    Bom, a dor já se transformava em torpor, em excitação, em alívio, seja lá o que as pessoas sentem quando elas morrem de dor.
    Meu pulmão mostrava-se dispensável pro resto de história que eu tinha.
    Os peixes nunca mais;
    De frente pra mim eu tinha caído
    tão rápido
    que sumi de qualquer campo de vista que eu pudesse ter pra baixo, instantaneamente.
    Me restou olhar pra baixo.
    Mas não para me procurar no infinito, pois isso já não era possibilidade.
    Sim, pra baixo.

    Olhei pra baixo por ser a única opção
    - explico:
    Esses momentos não são pra gente olhar pra trás.
    A possibilidade de ver a mãe, a família, as histórias da praça, vergonhas sorrisos corridas cachorros e estradas me aterrorizou e te aterrorizaria também.
    Eu já havia prometido para o fundo do meu coração que ainda supreendentemente batia que não voltaria a ver os peixes. Que ódio.
    E não queria, de jeito nenhum, ter um segundo lugar para não olhar.
    Pulei a parte da frustração e de outra dose de ódio e simplesmente não olhei pra trás.
    Esses momentos não são pra gente olhar pra trás.
    (e, como todo mundo sabe, em história ruim e perseguição mal feita os lados nem existem) -
    Só para constatar o que eu já imaginava antes.
    E depois.
    O azul virando preto. Negro y azul.
    Não tinha nada, mesmo, pra baixo.
    Isso me desapontou um pouco.

    Que pontada.
    Acho que agora sim, o reflexo estranhamente demorado da pane nos pulmões.
    Agora sim.
    Por favor que eu não quero mais olhar pra cima. Que ódio desses peixes malditos.
    Que pontada. Puta merda.
    Puta merda.
    Que pontada.
    Será que vale tentar respirar de novo?
    Mas eu já tinha desistido disso há tanto tempo.
    Mas o pulmão arranjou uma última contração patética. Daquele tamanho, ter a coragem.
    Puta que pontada.
    Respirar, agora?
    Que pontada.

    Respirar.

    Sério?

     


  6. Cascalho

    O Manoel que tinha essas histórias de falar pra gente que qualquer coisa é obra do destino, que qualquer coisa pode ser um milagre e que a gente nem imagina mas causamos acontecimentos de todos os níveis nas vidas das pessoas pelos nossos pequenos atos do dia a dia. Mas ele não falava em forma de autoajuda e muito menos sobre teoria do caos. Era tudo um negócio meio místico, meio do destino, meio mais ou menos. Bem dessas coisas que a gente até tira um sarrinho depois.

    Ainda bem que o Manoel não tava lá comigo hoje. Que aí ele ia pirar e encher o saco daquela forma com essa história e a coisa toda iria até perder o encanto. Pensa, se eu balancei é porque foi um momento sério pra mim. E ele, com toda aquela seriedade exagerada com essas coisas que não são pra gente, até estraga.

    Eu só tava andando e chutei um cascalho. Eu tenho mania, assim como provavelmente mais da metade da população, de chutar pedrinhas de cascalho soltas na calçada. Não é? Não tem algo de meio magnético ali em ver de que jeito aquele monte de face sem simetria nenhuma vai fazer sua trajetória pela rua, pela cidade, pela vida das pessoas? Não é meio irresistível, justamente por ser errado, tentar prever a rota torta daquele monte de quina, batendo em mais um monte de quina que é o concreto da calçada torta, estudando aquele monte de materiais que são os tipos de asfalto, metais das placas e pneus dos carros? Não é lindo ver onde aquilo vai parar e constatar que você e qualquer poder de intuição e conhecimentos de física que você achou que tinha não são nada frente à grande aleatoriedade bizarra que é o nosso mundo? Porque, meu amigo, o negócio nunca vai parar naquela sarjeta do outro lado da rua entre as duas pinturas amarelas das guias rebaixadas de garagens vizinhas à padaria. E você sabe. Mas você chuta. Eu chuto.

    Acontece que pra mim chutar o cascalho é sempre esse momento que eu falei, de constatar o caos, de provar a aleatoriedade e esmagar, pra variar, qualquer possibilidade de corda de marionete nas coisas. Ou então ver que as cordas são bem atrapalhadas e nem um pouco objetivas, narrativamente falando, o que seria frustrante já que não existe graça nenhuma em contar uma história sobre como um cascalho foi parar em lugar nenhum.
    E o problema é que parece que a mão das madeiras que me movem caprichou só por isso.

    Bem enquanto eu dava aquela atrasada no passo, aquela desequilibrada que te faz jogar a perna onde ela não iria normalmente e aí conseguir bater na pedrinha deslocada em 10 centímetros do seu caminho, com o impulso máximo sem chegar minimamente no limite do esforço, bem nesse momento eu olhei pra frente pra seguir a tradição e calcular onde é que a pedrinha poderia - mas nunca iria - parar, de todo aquele mundo amplo para ela que consistia em carros, pessoas, animais, construções e poças d’água. A primeira coisa que me lembro de ter registrado no momento foram outras 3 pedrinhas de cascalho na sarjeta, a pouco mais de um passo de mim. Elas estavam numa ordem inusitada, sendo duas encostadas uma na outra, seguidas de um espaço e da terceira pedra. Ou seja, era uma linha de três pedras, com duas encostadas e uma deslocada. Não sei se eu sou um observador de cascalhos incomum, mas acho que todo mundo imagina que 3 pedrinhas assim não são coisa de todo dia. O ângulo, as distâncias, os tamanhos. É claro que isso tudo eu só fui ver depois, mas o registro tinha sido feito na hora, sem perceber mesmo.
    Aliás, nem lembro das outras coisas que registrei antes de chutar. Lembro de ter passado o olho pelo resto da rua e de ter definido um destino cabível - mas nunca provável. Mas o que aconteceu me fez apagar tudo que não era o que aconteceu da cabeça:

    O cascalho nem quicou no chão. Ele foi do meu pé direto para o vão das três pedras alinhadas. E parou ali. Eu não tinha visto, mas o espaço que havia entre as duas pedras encostadas e a outra, separada, era exatamente o espaço de uma pedrinha daquele tamanho. Era o espaço negativo do positivo que eu chutei. Era o portal para a manifestação do desitno e do mestre das marionetes. Aquela pedra nunca iria voar ali, nunca iria cair do jeito exato para que sua força fosse inteira dissipada e ela nem pingasse. Ela nunca, nunca encaixaria ali.
    Encaixou.

    Eu fiquei olhando de uma forma meio vazia. Eu não tinha nem entendido, e quando entendi me recusei a acreditar. A fila de quatro pedras de cascalho numa sarjeta de uma rua de acesso a uma avenida grande da maior cidade do país tinha se formado. A última peça tinha sido cuidadosamente colocada ali por uma força maior. A força de todos os meus músculos envolvidos. A força do meu peso calculado errado de propósito pra pender um pouco pra fente. E agora elas estavam lá, alinhadas em uma linha perfeitamente reta, absolutamente desprovidas de espaços entre si. Provavelmente nunca na história do universo uma coisa dessas aconteceu - é, eu sei que estatisticamente e a rigor nunca nada que acabou de acontecer havia acontecido daquela forma na história do universo, mas quando a aleatoriedade do mundo cruza com a nossa limitação carteziana de medição física, parece que o acaso normal se desvaloriza. é jogar seis dados, tirar seis seis e pensar que é menos provável que qualquer outra combinaçào aleatória.

    Meu amigo, quatro pedras alinhadas no meu dia, na minha vida, na minha cara e somente por minha causa. Ninguém mais chutaria aquela pedra ali e mesmo que chutasse ninguém mais constataria a loucura que foram essas pedras se ajustando, porque não aconteceria com ninguém. Eu tenho certeza.

    Fiquei preenchido com uma aflição, uma incredulidade, uma queimação lógica que me assustou. O mundo nunca tinha se comportado assim comigo e era até meio triste saber que também não foi pra me impressionar que se comportou na hora.

    Eu voltei a olhar pra lá. Olhava pra frente, voltava a olhar. Elas ainda estavam lá. Perfeitas como eu as havia deixado. Pensei em tirar o celular do bolso e bater uma foto daquilo, fui levado pelo fluxo, não fiz. E ninguém acreditaria, como também não imagino que vá acreditar agora. Depois da quinta olhada eu só olhei uma sexta, já sem conseguir destiguir os cascalhos longe de mim, e ainda assim sentia a fila improvável ali, formada, e as cordas das coisas. E o mestre rindo da minha cara. Isso enquanto eu estava virado pras pedras que eu já não via, isso enquanto eu olhava pra trás, e não pra frente, que é pra onde a gente olha.

    Respirei, me despedido do destino místico tão óbvio no momento que me fez ter mais certeza que o Manoel jamais terá e, então, porque tenho uma cabeça a manter, tenho uma ciência a provar, porque tenho a matemática, olhei pra frente.

    Foi sorte.

     


  7. Malévolo

    "Esse moleque é malévolo", ele me disse com a boca ainda meio lambuzada de chocolate.

    Aquele chocolate tinha derretido a tarde inteira no painel do carro, dentro da embalagem de plástico laminado. Quando ele pegou, já duro e à temperatura ambiente, achando bonito o fato do negócio estar deformado, eu confesso que também fiquei curioso pra saber a forma que sairia de lá. Ele abriu o chocolate e claro que a forma era de nada, mas as lombadinhas caprichosas da forma original da barrinha já eram. E apareceram umas dobras de plástico formando um relevo topográfico interessante ali. Mas ele tinha só a curiosidade ingênua de saber que não encontraria o que deveria, só pelo tato.

    Eu acabei achando mais inusitado ele falar moleque que malévolo.

    Eu me lembro de uma colega da quarta série que usou transgênico pra falar intransigente, que ela também não sabia o que queria dizer. Vinha usando a semana inteira “intransigente, você”, “nossa, que intransigente”, “achei intransigente”, e talvez por ter batido o olho em transgênico ou ouvido na TV sem querer, acabou trocando as palavras.

    Ela nem percebeu, e para a situação que ninguém mais lembra também não fez diferença nenhuma, já que nenhuma, nem intransigente mesmo, se aplicava.

    Só eu que devo ter reparado a diferença, não porque eu era mais inteligente que eles, e sim porque transgênico era minha palavra da semana anterior. Lembro de uma conversa com a minha mãe na mesa da copa de toalha xadrez laranja, comendo um mamão, sobre transgênicos. Achei bonito e usei, falando todo convencido pra qualquer um que cruzasse meu caminho, de como não comia transgênicos. Comia, comia montes de transgênicos. Só não sabia. Mas pelo menos fazia questão de perguntar pros colegas antes de pedir uma mordida da maçã deles.

    "Isso aí não é transgênico não, né?" 

    "Nunca vi alguém tão antropológico!"

     

    O moleque era um homem de uns 30 anos que furou o semáforo de bicicleta. Ameaçou parar no amarelo mas preferiu passar mesmo, já sabendo que o tempo não daria. Vai saber.

    Rapidinho eu argumentei comigo mesmo se o moleque não era pela bicicleta, mas do jeitinho que ele falou deu pra ver que era a palavra do momento mesmo. Talvez fossem duas, essas duas mesmo. Mas malévolo, por ser menos comum, eu perdoei, até porque logo passaria.

    "Mas ele não é moleque, é?"

    "É! Um moleque malévolo!"

    Suco de uva com leite nunca foi moda e nunca vai ser, e nunca consegui observar ninguém que gostasse, mas acontece que em um dado momento da vida eu encanei com isso, e depois de jogar bola no clube só pedia essa loucura. Meus amigos tomando guaraná. Era o tipo de cardápio que listava todas as frutas e relacionava um preço com água e outro com leite. É claro que ninguém pediria uva com leite. Mas eu pedi um dia. E achei o ato bonito. Me convenci que era bom e que era disso que eu gostava depois do exercício, e pedia toda vez.

    Aí que você vê pra quê serve o inverno. Um dia o frio chega, os meninos largam de jogar bola pra jogar mais videogame na casa do alex (era sempre lá), onde obviamente não existia suco de uva com leite - e eu não era desses que chegava na casa dos outros e pedia o menu -, e aí quando o calor voltou e a gente tornou a ir pro clube, eu já tinha deixado o suco de lado, os amigos me receberam sem perguntas no guaraná e fim.

    "Tem gente que vai bem de anel, tem gente que vai bem de colar. De brinco. E tem gente que não vai bem de nada, mas isso também é alguma coisa. Acho que com o tempo você fica bem do que você quiser porque aí aquilo vira sua coisa e você vai bem com ela sem querer, mas essa história do Pê ficar usando um negócio cada semana não dá, né. De repente ele descobre anel de coco e bota um em cada dedo. Cada hora é uma coisa. E o pior é que ele é desses não vai bem com nada."

    Eu só fiquei ouvindo com o fone esquerdo empurrado discretamente pra trás. 

    "Tá bom. Você tá todo lambuzado, sabia?"
    "Lambuzado?"

     


  8. Solidão de merda

    A solidão que todo mundo tem
    E não necessariamente sente. Mas tem.

    Não deve existir uma pessoa que nunca esteve sozinha. Não devo afirmar.
    Não deve existir alguém que nunca achou que não há ninguém que nunca esteve sozinho.
    A solidão permeia todo mundo em sentimento e observação. Ela se faz notar. Ela acompanha quem não é solitário.
    Quem sabe ela acompanha todo mundo, e só quem não tem ninugém pra distrair percebe.
    A solidão é solitária. E se apega a quem dá uma chance a ela.

    E talvez quem dá uma chance a ela se apega também.

    Esses dias eu estava sem ninguém e decidi escrever.
    E acho que vi a solidão do meu lado. Deitada na minha cama. Com as pernas meio cruzadas. Ela deve ser que nem roteiro de filme ruim. Bem personificada pra você ver que a coisa tá feia.
    Eu acho que ela estava ali. Mas acho que ela é a evolução do lirismo humano para as musas de antigamente. Parando pra pensar, pode ser mesmo.
    Se antes a humanidade escrevia para ninfas ou figuras humanas inspiradoras, hoje ela escreve para a falta disso tudo. Ninguém tem ninfas. E só escreve quem não tem mesmo. E só escreve, talvez, quem não tem inspiração nenhuma. Porque inspiração - hoje, ao menos - é movimento. E movimento é gente. E escrever não.
    Quem sabe escrever é solidão.
    Quem sabe a saudade é a companhia que nos faz parar pra ver, e ter tempo pra escrever.

    Quem sabe as musas não existiam.

    Faz muito tempo que eu não te vejo.
    Não, nem faz tanto tempo. Mas foda-se.
    Faz algum tempo, e é o que importa. Digo, o que não importa. É o que eu odeio.

    Essa história da vida atropelar as pessoas quando é delas que sai a vida.
    Esse papo de ser feliz.

    Essa merda toda.
    Se eu estivesse com você não estaria pensando merda.

     


  9. Eu queria ter você

    Eu queria ter você.
    É simples assim. Sem poema sem lirismo sem verso sem piedade.
    Eu queria ter você sem qualquer enrolação. Sem qualquer distância tempo internet outra cidade.

    Sem essa rima de merda, sem essa linha pulada.
    Eu queria ter você comigo agora sem mais nada.

     


  10. Acéfalo é ruim

    “O nome da filha dela é Gaia? Então ela é filha da Susi e mãe de todos nós e da natureza?”

    Falei, no carro, debochadamente, no tom certo pra parecer sério até um nível máximo onde as pessoas percebessem a sagacidade, a seriedade, e talvez até chegassem a questionar um por um instante delirante mas logo tivessem a certeza de que foi só piada e eu não acredito nisso aí de mãe Terra não, poxa. Eu tenho uma posição social pela qual zelar, por favor, né.

    Mas eles também tinham, e claro que fizeram aquela cara meio besta soltando o ar mais forte pelo nariz só pra manifestar algum entendimento, não necessariamente alguma graça.

    “Cara, mas por que você me avisou só agora? Tanta coisa pra falar, tanta coisa pra falar, aí acaba saindo essas merda!”, defendi.

    Meio nesse climinha, ou eu ou o Du tentando encaixar umas gracinhas não melhores que essa e a Clara quieta, só no arzinho pelo nariz. “Respira, Clara!” Esse foi o ponto alto.

    Chegando na Susi, toquei a campainha, olhei pra Clara e falei de novo, apelando. Ela deu uma risadinha bem verdadeira, e o Du soltou ar pelo nariz, mas de um modo bem mais espontâneo que o das piadas do carro, esse aí foi até triplo, simulando uma risadinha contida porque a Susi poderia aparecer ali.

    A Susi apareceu ali, no cantinho da janela, empurrando a cortina pro lado. Deu um sorrisão, percebeu alguém falando com ela lá dentro, olhou pra trás e gritou, simpaticamente, “é bom!”. Olhou de volta pra gente com uma versão mais fofa do mesmo sorrisão e sumiu da janela.

    Abriu a porta e antes que qualquer um de nós ou ela mesma pudéssemos esboçar qualquer reação, vem de lá de dentro uma voz esganiçada e fininha, bem de criança mesmo, “E PORTA?”, mas aí a Susi conseguiu não responder instantaneamente e partiu pra cima da gente “Paulããããããão!”, me abraçou bem forte mesmo, foi legal, a gente era melhor amigo, né, e aí gritou quase com a mesma intensidade os nomes da Clara e do Du, que na verdade foram Clara e Duzão, que era como uma galera conhecia. O grito do Duzão foi de um jeito mais descontraído, que nem cumprimento de surfista na novela, assim, sabe, meio querendo ser malandra de propósito.

    Eu, que morro de medo desses reencontros, de já ficar chato, de já ser estranho, de não ter assunto, mesmo após o caloroso cumprimento ainda estava noiado e como sempre apelei pro humor, “Mas me diz, Susi, e porta?”, me referindo com uma cara bem esquisita à frase que todo mundo ouviu 10 segundos antes. A Susi foi falar “é, então, é essa pes-” e foi interrompida por outra versão, agora mais alta, da frase. “MÃÃÃE, E PORTAAA?”. Demos uma boa risada, eu meio aliviado da tensão que ainda não havia nos pegado, e aí a Susi, com cara bem de mãe mesmo, retomou “é essa peste da minha filha… Gente! Eu tenho uma filha!!”, como se se tocasse que nunca havíamos nos encontrado desde que a Terra existia sobre a terra… Melhor não insistir nesse tipo de piada, né?

    Todos comemoramos mais pela ansiedade e alegria contagiante da Susi enquanto ela se virava pra dentro e falava “é bom, senão a gente não ia conseguir entrar em casa, né!”. Virou de volta pra gente e nos falou pra entrar logo que tinha uma mesona posta ali dentro esperando por nós.

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